Bolsonaro e a retórica do desespero: quando o discurso da vítima tenta substituir a responsabilidade.

Jair Messias Bolsonaro construiu sua trajetória política se vendendo como “antissistema”, mas deixou como legado um dos períodos mais corrosivos da política brasileira. Escândalos envolvendo sua família, ataques às instituições, estímulo ao caos e a normalização da corrupção no entorno do poder desmontaram, peça por peça, a farsa moral que sustentava seu discurso.
Agora, diante da possibilidade real de prisão, Bolsonaro recorre a uma estratégia conhecida: o papel de vítima. Declarações dramáticas, insinuações de colapso emocional e falas que beiram a chantagem moral passam a ocupar o espaço onde deveria estar a prestação de contas à Justiça.
É preciso dizer com clareza: ameaças de autodestruição não podem ser usadas como escudo contra a lei. A saúde mental é assunto sério e deve ser tratada com responsabilidade, acompanhamento médico e humanidade — não como ferramenta política para constranger o Judiciário ou mobilizar seguidores.
O Brasil já pagou caro demais pelo bolsonarismo. Foram ataques à democracia, desprezo pela vida durante a pandemia, aparelhamento do Estado, orçamento secreto, rachadinhas, imóveis suspeitos e uma rede de aliados envolvidos em esquemas que hoje se acumulam nos tribunais.
Responsabilidade não é perseguição. Justiça não é vingança. E responder pelos próprios atos é obrigação de qualquer cidadão, inclusive — e principalmente — de quem ocupou a Presidência da República.
O país não pode aceitar que o drama pessoal, real ou encenado, substitua a verdade dos fatos. O Estado Democrático de Direito não se curva a ameaças emocionais. Ele se sustenta na lei.
E é exatamente isso que muitos ainda temem: a lei funcionando.

