22 de janeiro de 2026

O mito da fragilidade: quando a narrativa não convence mais.

Querem mesmo que o povo acredite nessa nova versão do personagem? O mesmo homem que por anos construiu sua imagem pública como “capitão”, “imbrochável”, defensor da violência, admirador confesso de torturadores da ditadura e propagador do ódio político, agora surge como um frágil senhor idoso, vítima de uma queda da cama enquanto dormia.

A tentativa de reescrever a própria imagem não é novidade na política. O que chama atenção, neste caso, é o contraste gritante entre o personagem que foi vendido ao país e o papel que agora se tenta encenar. Durante décadas, a retórica foi a da força bruta, da intolerância, da ameaça constante aos adversários e às instituições democráticas. Nunca houve espaço para fragilidade, empatia ou humanidade — apenas para o discurso da agressão e do enfrentamento permanente.

Agora, diante do peso das investigações, das condenações e do isolamento político, a narrativa muda. O “mito” vira vítima. O homem que debochava de doentes, minimizava mortes e exaltava a violência passa a pedir compreensão, cuidado e solidariedade. É uma transformação que não nasce do arrependimento, mas da conveniência.

O problema não é a idade, a saúde ou a condição física de ninguém. O problema é tentar subestimar a inteligência da sociedade. O brasileiro não esquece discursos, vídeos, entrevistas e declarações que ajudaram a normalizar o autoritarismo, o ódio e o desprezo pela democracia. Não se apaga o passado com uma nova encenação.

A construção dessa imagem de fragilidade soa menos como humanidade tardia e mais como estratégia política e jurídica. Quando o discurso da força deixa de proteger, tenta-se vestir o da vulnerabilidade. Mas coerência importa. E memória também.

No fim, a pergunta permanece: quem acreditou no personagem agressivo, armado e ameaçador, deve agora acreditar sem questionar no personagem frágil e indefeso? A história recente mostra que não se trata de evolução pessoal, mas de conveniência narrativa.

E, desta vez, o roteiro parece não convencer tanta gente quanto antes.

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